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uma pequena história da companhia ensaio aberto
Você acha que no mundo alguém imaginou um
poema sobre o ato de catar feijão
em busca de um teatro necessário
Em 1992 um grupo de profissionais dos diversos ofícios teatrais reuniu-se para conversar sobre o panorama do teatro no quadro geral da sociedade brasileira contemporânea. Tomou-se como ponto de partida consensual a existência de um vazio correspondente a um Teatro assumido em sua vocação crítica e politizada, um Teatro que aceitasse ser uma arena de discussão da realidade, um Teatro onde o Mundo seria visto como prioridade, mais importante do que a própria cena. Reencontrar este caminho significa resgatar para o palco uma função social, e, para a platéia, um público atualmente afastado, formado por pessoas que recusam uma visão simplista do Teatro.
pontos de partida
Duas idéias passaram a constituir pedras angulares do Teatro em construção:
1)
o estabelecimento de uma nova relação palco-platéia, abandonando o
ilusionismo e a identificação causadores da esterilidade de um
espetáculo. Ao contrário, o que se busca não é mais representar a
realidade ao vivo, mas a imagem de um pedaço da realidade retirado do
fluxo contínuo da vida, gerando assim a reflexão.
o cemitério dos vivos: um paradigma
O primeiro encontro da Companhia Ensaio Aberto com o público acontece em janeiro de 1993 com o espetáculo O Cemitério dos Vivos. O diretor Aderbal Freire Filho falou sobre o espetáculo: “O teatro que descobriu o caminho de volta da sala para a cidade pode inventar sua nova arquitetura ou atacar a cidade diretamente. Nestes casos, a mistura de drama e realidade tem um valor político irrecusável. Um espetáculo no próprio corpo da cidade precisa ser construído por quem sabe deste poder político. A qualidade fundamental de O Cemitério dos Vivos é esta consciência, que o diretor Luiz Fernando Lobo tem profundamente e que seus atores também demonstram ter. É por causa disso que eles fazem um espetáculo belo e eficiente, isto é, com um sentido que justifica o ataque a cidade. Indo aos limites da beleza teatral, como quando um ator chega, no teto do edifício, à beira do abismo, O Cemitério dos Vivos está indo ao limite da consciência que mantém o homem vivo.”
Tão importante quanto o espetáculo foi a organização do ciclo de conferências sobre o tema A República dos Excluídos, realizado na Biblioteca Nacional e no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, com a participação de nomes expressivos do pensamento brasileiro contemporâneo. O sucesso deste projeto, manifestado na ótima recepção por parte do público e da crítica que assinalou o acerto do caminho traçado: “a Companhia Ensaio Aberto estréia no cenário teatral carioca de forma brilhante.” Lionel Fisher – Tribuna da Imprensa.
o caminho da consolidação: na contramão do circuito
No biênio 1993/94 implementado o projeto inicial com a trilogia O Cemitério dos Vivos, Pierrô Saiu à Francesa e A Missão, a Companhia Ensaio Aberto amadurecida pelos acertos e dificuldades, e acima de tudo pela experiência de fazer um teatro transformador de idéias em espetáculos, de possibilidade em realidade, entendeu ser o momento oportuno para um passo há muito projetado: a ocupação de um espaço por um período maior. "O Teatro da Aliança Francesa de Botafogo está abrigando agora uma companhia de teatro e uma peça – Cabaré Youkali – que são a cara de sua proposta. Afinal, a aguerrida Companhia Ensaio Aberto sempre primou por procurar a contramão da maré para exercer suas atividades." Marcelo Ambrósio – Jornal do Brasil
por um teatro público
A Ensaio Aberto, desde a sua fundação, defende que os grupos e as companhias de teatro devem ser subsidiados pelo poder público. No triênio 1998, 1999 e 2000 a Companhia Ensaio Aberto ocupou um espaço público no coração do Rio: O Teatro Glauce Rocha. Apesar da companhia não ser subsidiada, esta ocupação possibilitou o desenvolvimento de um projeto de acesso aos espetáculos de um público carente, historicamente afastado dos teatros. Desde então o movimento social organizado, as universidades e escolas públicas passaram a andar sempre lado a lado com a Ensaio Aberto, promovendo "um trabalho modelo de formação de platéia. Pintados, em sua maioria, com fortes tintas políticas, os espetáculos da Companhia Ensaio Aberto, do diretor Luiz Fernando Lobo, sempre atraíram a atenção dos líderes partidários de esquerda e integrantes do movimento dos Sem-Terra. No Glauce Rocha a companhia adquiriu o perfil que tem hoje." Roberta Oliveira – O Globo
Com o espetáculo Companheiros essa união transformou-se na principal característica do nosso grupo, "o único no Rio que vem buscando estabelecer com a platéia um tipo de comunhão não atrelada às leis que regem o mercado do entretenimento". Lionel Fisher – Tribuna da Imprensa.
uma companhia internacional No ano de 2000, a convite de Helder Costa, diretor do Teatro A Barraca, de Lisboa, o espetáculo Companheiros faz uma temporada em Portugal. A Ensaio Aberto numa co-produção com a Câmara Municipal de Lisboa faz estréia internacional do espetáculo Morte e Vida Severina. "Por Lisboa acaba de passar o mais importante espetáculo que o Brasil podia ter enviado a Portugal. (...) Não se vislumbra, de facto, no programa nacional oficialmente reconhecido, outra manifestação artística com as dimensões o peso histórico e a actualidade de Morte e Vida Severina encenada no Castelo de São Jorge, em Lisboa." Manuel João Gomes – Público, Lisboa. A temporada européia levou mais de duas mil pessoas a assistir ao espetáculo. 2002: 10 anos de história
Em 2002 a Ensaio Aberto completa 10 anos de história e monta a Missa dos Quilombos. "O gigantesco galpão em que Luiz Fernando Lobo e sua Companhia Ensaio Aberto preparam o espetáculo Missa dos Quilombos lembra, e muito, aquele em que Ariane Mnouchkine trabalha com o seu Théâtre du Soleil na Cartucherie, arredores de Paris." Roberta Oliveira – O Globo. A companhia recebeu a indicação ao Prêmio Shell, na categoria especial, por “10 anos dedicados ao teatro social” e Luiz Fernando Lobo ganhou o prêmio Golfinho de Ouro, dado pelo Conselho de Cultura do Estado, pelo conjunto de sua obra. na estrada, um novo paradigma
Missa dos Quilombos se tornou um novo paradigma na história da Ensaio Aberto. Desde a estréia do espetáculo a Companhia percorreu diversas cidades, sempre em importantes teatros e mantendo o diferencial de levar nestes equipamentos a população que normalmente não tem acesso a bens culturais, realizando um trabalho de democratização de acesso a nível nacional. No palco e na platéia os construtores da Esperança Negra: "Eles manipulavam maçaricos, cortavam ferros (cujas limalhas espalhavam-se como lâminas douradas escaldantes pelo chão), manipulavam foices e enxadas, guinchos, carrinhos, carregavam caixas e balaios, enfim, interagiam com máquinas de aspecto forte, pesado e bruto. Apesar da figura densa dessas máquinas, elas funcionavam como elemento poético e até completavam a trilha sonora, em um jogo de batidas que se encaixavam, tal qual suas próprias engrenagens.” – Vanessa Vaz – Diário da Tarde. “Como a História não é contada de maneira linear, a montagem se apóia na força da imagem e da música para enfatizar a crítica às condições de trabalho precárias das minorias.” Lauro Lisboa Garcia – O Estado de São Paulo. Quilombo Gigante; Bom, bonito e necessário; A escravidão do mundo moderno em cena; Feridas abertas; Novas e piores senzalas são alguns dos títulos das matérias nos cadernos de cultura dos principais jornais do país.
repertório: uma nova conquista
Além de circular por todo o país com a Missa dos Quilombos, uma nova conquista da Ensaio Aberto foi implantar o sistema de repertório, onde todos os novos espetáculos criados pela Companhia permanecem em cartaz no Rio de Janeiro, ou em turnê, em alternância. As últimas criações da Companhia - D. João VI, em 2003; Havana Café, em 2004; Olga Benario – um breve futuro, em 2006 e Estação Terminal, que teve estréia no Spill Festival, em Londres, em 2007- são os espetáculos do atual repertório.
idéias, caminhos, definições...
"A Companhia Ensaio Aberto já mostrou em seu primeiro trabalho, O Cemitério dos Vivos, que viria para falar principalmente dos excluídos. Em 1996, com A Mãe, de Gorki/Brecht, assumiu-se como marxista; em 1999, com Companheiros, assumiu-se como militante; em 2001, com Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, pôs bandeiras do Movimento dos Sem-Terra no Castelo de São Jorge, em Lisboa; em 2002, com Missa dos Quilombos, partiu dos negros para mais uma vez falar de (ou dar voz a) todos os excluídos da sociedade moderna. 'Não é só uma questão de raça. Como disse Heiner Müller, meus cúmplices são os negros de todas as raças', diz Luiz Fernando Lobo diretor da companhia desde a sua criação." Luiz Fernando Vianna
2007: 15 anos
Em 2007 a Ensaio Aberto faz 15 anos, não se acomoda e quer mais. Uma companhia que se consolidou como a única do Rio a se dedicar exclusivamente ao teatro político, colhe hoje os frutos da perseverança. Trabalho e resistência. Conquistamos muito, mas sabemos que ainda temos um longo caminho a percorrer com dificuldades e contradições muito diferentes das iniciais. Nosso Teatro só adquire validade no debate crítico travado com a realidade.
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